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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Medo por ser mulher

Recebemos um email de Ariane Corniani relatando a violência que sofreu nas proximidades de uma estação de metrô em Sâo Paulo. Ariane tem 25 anos e publicou seu depoimento no blogMistura Urbana com o título “O dia que eu tive medo por ser mulher”:

Hoje eu fui à subprefeitura da Mooca, em São Paulo, resolver uns problemas da minha empresa. Por ser muito próximo à estação Bresser-Mooca do metrô, voltei andando até a estação para mais um dia de trabalho. Nunca tive problemas, conheço o bairro há mais de 10 anos e nunca fui vítima de nenhum crime, estava bem tranquila. Ao atravessar a Radial Leste, sob o Viaduto Bresser, um homem começou a “mexer” comigo, me chamar de gostosa e outras obcenidades piores que não tenho interesse em repetir mais uma vez. Fiquei com medo porque nem os moradores de rua que costumam ficar pela região estavam por lá. A rua estava vazia, apesar de já ser 10h. Não tem comércio, salvo alguns botecos bem pés-sujos, não tinha pra onde correr ou a quem pedir ajuda quando os ~elogios~ passaram a ser ameaça de estupro: entre outras coisas o homem dizia que ia me furar e fazer barbaridades comigo, eu acelerava o passo e a fonte das ameaças também. Desesperada, virei pra trás pra reconhecer o indivíduo, que não passava de um, aparentemente cinquentão, branco, apresentando sinais de embriaguez, com não mais de 1,60m. No ímpeto do ódio, também querendo chamar atenção de quem pudesse ouvir, soltei um sonoro “VAI SE FODER, SEU FILHO DA PUTA!”, e corri. Não tinha policial na rua, um ou outro transeunte ou taxista passava, saí correndo, me atirando na frente dos carros e entrei no pronto-socorro do hospital logo adiante.

Suando em bicas, chorando, tentando telefonar para o meu marido e ainda assim ABSOLUTAMENTE NINGUÉM na recepção do pronto-socorro se mostrou solidário. Olhando pela janela pude ver o agressor passando duas vezes em frente ao hospital. Sentei na recepção e esperei o tempo passar. Quando achava que estava tudo bem, saí rumo ao metrô, observando se não era seguida. Não era. Mas para minha surpresa, ao adentrar na estação, o agressor estava lá, na fila da bilheteria. Nunca tive tanto medo e TUDO passou pela minha cabeça: “esse cara vai me ver e vai me seguir”, “vai saber onde eu trabalho”, “vai continuar mexendo comigo”… Atravessei o bloqueio e fui direto pedir socorro a um grupo de seguranças do metrô, que prontamente abordaram o indivíduo e tentaram me proteger da exposição. Num canto reservado registraram a ocorrência e tentaram me acalmar com um copo d’água. Me informaram sobre os procedimentos necessários para o registro criminal da ocorrência, que faz muita gente desitir de prosseguir com a queixa. Certa de que, como mulher, é minha OBRIGAÇÃO impedir que pessoas nojentas como esse homem fiquem livres para ameaçar, agredir ou pior, estuprar outras mulheres, decidi prestar queixa. Continue lendo em O dia em que eu tive medo por ser mulher.
Vagão exclusivo para mulheres no metrô do Rio de Janeiro. Foto de Eduardo Naddar/Agência O Dia

Ariane não foi estuprada e nem sofreu lesão corporal, mas pergunto: é comum um homem passar pelo que ela passou nas ruas de uma grande cidade? É comum um homem ser assediado por meio de palavras grosseiras e em seguida ser perseguido e ameaçado de estupro? Sabemos que não. E essa infelizmente é uma face da misoginia e do machismo com a qual muitas mulheres precisam conviver. Nós já falamos inúmeras vezes que o machismo não atinge apenas as mulheres, mas infelizmente essa é uma de suas formas mais evidentes.

São fatos que limitam o direito das mulheres ao espaço público. Essa interdição reflete uma dicotomia entre pessoal e político, que o feminismo tenta desconstruir. Nas cidades – onde se exerce o que ficou conhecido como cidadania – a presença da mulher ainda é conflituosa. Homens e mulheres têm vidas urbanas diferentes; mesmo que a falta de segurança seja um problema para todos, para as mulheres o medo é maior. Continue lendo em O corpo é meu, a cidade é nossa por Barbara Lopes.

Nas cidades brasileiras o assédio representa uma das formas mais perversas de violência contra a mulher. Em transportes coletivos as roçadas, encoxadas e passadas de mão são práticas cotidianas, que muitas vezes paralisam, pois as mulheres não são educadas a revidar, somos ensinadas a baixar a cabeça e seguir nossos caminhos. Talvez algumas pessoas pensem que o caso de Ariane é isolado, que o sujeito que a ameaçou e perseguiu é um maluco, mas não é isso que vemos nos relatos de várias mulheres pela internet:

Saindo da área do camping, percebi que não estava com minha credencial, abri a bolsa e comecei a procurá-la e ao ver que eu ia para barraca e falei para o meu filho me esperar lá, ele decidiu me acompanhar (achei esquisito, mas pensei que ele estivesse desconfiado que eu não possuísse crachá). Quando chegamos, vendo que eu só tinha a chave de duas barracas, perguntou onde estava “o meu esposo” – e a burra aqui ainda disse que não tinha mais “esposo”. Ele ficou olhando eu procurar o crachá, com metade do corpo fora da barraca, metade dentro, e enquanto isso puxava assunto. Quando eu estava terminando e me levantando pra sair da barraca, ele falou: “Viu, eu vou querer tomar um café com vc. Mas não agora! Mais tarde, lá pelas duas da manhã”. E quando eu havia finalmente me levantado ele me pegou pelos braços (sabem meninas, quando não dá muito pra mexer o braço?) deu um daqueles olhares incisivos e disse com voz enfática ” porque mulher como vc não é pra ficar sozinha por aí”. Continue lendo em Assédios por Ladyrasta.

Quase todo o dia tenho que me conformar com um “aí sim, hein?!” (esse já virou clichê!), “oi princesa”, “que coisa linda”… e por aí vai. Até aí eu aguento e se estou em dias bem humorados, até dou uma risada simpática como resposta. Outras vezes mostro aquele dedo para dizer “não quero papo” e outras grito um sonoro “vá se f*” e sigo pedalando. Mas, uma hora a gente perde todo o tipo de paciência. E a minha hora chegou hoje.

Nove horas da manhã, indo para o trabalho, na Rua Simão Álvares, entre as ruas do Pinheiros e Arthur Azevedo, em uma subidinha me aparece uma kombi escrita Horti-Fruti com quatro rapazes dentro. O passageiro do banco da frente enfiou o rosto para fora para jorrar algumas frases obscenas que não tenho coragem de repetir aqui. Eu poderia seguir o meu caminho, estava atrasada, pra quer dar atenção a estes cabeças de bagre? Mas hoje a minha tolerância se esgotou. Continue lendo em Desculpas… por Evelyn.

A violência está espalhada pelos centro urbanos. Porém, homens e mulheres vivem, sentem medo e enfrentam experiências e restrições de maneiras diferentes. Mulheres sentem muito mais medo do assédio e da violência sexual, seja de dia ou de noite. Há desde preocupações com o assédio sofrido nos transportes coletivos até a preocupação com estupros que limitam a mobilidade das mulheres e reduzem seu acesso a espaços públicos. Porém, o pior é saber que muitas vezes as mulheres são culpabilizadas pela violência que sofrem:

Passei a andar no vagão das mulheres sempre que saio à noite. Seja em Tóquio, na Cidade do México, em Nova Délhi ou no Rio. O recente caso de uma estudante de 21 anos molestada por um advogado no metrô de São Paulo denuncia o chikan paulistano. Um trem lotado e uma mulher jovem o encorajaram a agir. A moça desmaiou de pânico. Há quem diga que para contornar a persistência do abuso e a universalidade dos chikans a saída seriam os vagões só para mulheres. Enquanto espero o metrô em horários de pico já ouvi a tese de que o vagão feminino seria um privilégio indevido em uma sociedade que não discrimina homens e mulheres. Esse é um falso e superficial julgamento sobre as razões para a segregação espacial no transporte. O vagão de mulheres institucionaliza a violação de um direito fundamental da igualdade de gênero: o direito à mobilidade. O medo do abuso, da violência sexual ou da injúria sexista é uma barreira permanente para as mulheres no direito à mobilidade livre. Continue lendo em Privilégio à custa de assédio por Debora Diniz.
Metro Woman. Foto de Arroz com Nori no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mulheres sempre tem que ser mais precavidas, temos medo por sermos mulheres.Porém, não devemos ser as únicas responsáveis por nossa segurança. O Estado e a sociedade devem garantir segurança para as pessoas. E segurança não diz respeito só a proteção contra a violência, mas também as decisões que as mulheres são forçadas a tomar, referentes as roupas que usam ou trajetos que precisam fazer, por medo ou insegurança. A falta de liberdade das mulheres nas cidades também está relacionada ao “lugar” da mulher na sociedade. Às regras conservadoras que ditam o que é apropriado ou não para uma mulher. E a mídia segue perpetuando esses paradigmas ao retratar a violência contra a mulher travestida de humor no programa Zorra Total e em vários outros programas. O programa de tv não é o culpado por existirem casos de assédio no metrô, mas ao retratar violência e assédio como piada, corrobora e reforça um comportamento abusivo.

O debate da violência contra a mulher seja nos transportes públicos, em casa, nos espaços de militância política, hospitais, universidades são debates concretos, é preciso desmistificar o simbólico que muitas vezes está entranhado em nossa sociedade, porém apenas com apontamentos de soluções efetivas para combater a violência nestas diversas frentes é que nós mulheres realmente teremos avançado na disputa pela nossa própria vida; algo que tanto para o senso-comum, quanto para a grande mídia parece não ter grande relevância, mas pra nós que a vivemos cotidianamente. Continue lendo em Violência contra a mulher: dos abusos do metrô até a violência institucional por Luka Franca.



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Eu e meus “ismos”

Muita gente tende a concordar que se afirmar em qualquer que seja o ismo, uma conduta ruim, pois está se restringindo a varias possibilidades e reduzindo o seu campo de movimentação. Eu sinto exatamente o contrário, sinto que a cada ismo o meu conhecimento se tornou aos poucos cada vez mais erudito, no sentido real da palavra.

Foi durante a minha pré-adolescencia que entrei para o mundo do rock’n’roll e, ao contrário da maioria dos grupos de adolescente (Papalia, 2006), eu segui só. E minhas queridas amigas preferiram não restringir o seu gosto musical. E eu, ao contrario do pensamento compartilhado e pronunciado por ela, expandi muito mais a quantidade de bandas e de músicos, passei a buscar outras coisas que seguiam o meu gosto e tanto hoje quanto naquela época, conheço muito mais bandas que elas, pois além das que elas conhecem, que são a que todos conhecem, eu conheço as minhas. 

A minha segunda grande escolha, para outros, segunda grande restrição, foi o vegetarianismo, e isto na metade de minha adolescência. Depois deste, ir a uma lanchonete se tornou uma grande aventura, por que grande parte dos salgados tem carne, frango e/ou presunto. A partir dessa escolha e das dificuldades encontradas eu aprendi não apenas a cozinhar, mas também tive conhecimento de diversas plantas. Antes o meu almoço se resumia a arroz, feijão, tomate e um pedaço de algum músculo animal. Depois da minha decisão “extrema” todo dia meu almoço tem o acompanhamento diferente. Durante cerca de 17 anos, provei de quase tudo que um onívoro pode provar, agora provei muito mais.

A terceira que eu acho até que gera mais polemica que a segunda, foi o que eu mais gosto por sinal, o feminismo. Independentemente dessas palavras torna-se ou não parte de minha identidade, eu já defendia os conceitos descrito por ela, mas achava que se machismo é próprio do macho e feminismo é próprio da fêmea, etimologicamente falando, era uma oposição muito grande, um briga muito boba. Mas depois de começar a estudar Simone de Beauvoir, a figura mudou de lado. Senti-me bem, e a vontade de dar o nome para o que eu já era. Depois de me “filiar” ao feminismo e a minha independência de gênero, larguei de ser uma mulher machista, quero dizer, passei a respeitar meu gênero e me respeitar mesmo não sendo “uma mulher para casar” minha vida sexual e amorosa mudou muito e para melhor. Minha ver de ver o mundo dos gêneros se tornou muito mais interessante, aqueles termos moralistas que estavam impregnados em meu vocabulário continuam a sair. A mulher que “dava para todos” parou de ser uma vadia, se tornou uma pessoa livre. E até os termos vadia, piranha, periguete (...), só saem da minha boca para falar de minhas amigas.

Além dessas já ditas venho a mim como efeito teia a bissexualidade e o ateísmo. Esses “ismos” só abriram meu horizonte, estou muito satisfeito com a sensação que eles me proporcionam, embora enfrente muitas dificuldades, mesmo assim, me sinto muito bem com minhas decisões. Não deixei de ouvir musica, de me alimentar bem, de me relacionar intelectualmente ou sexualmente com homens. Faço tudo que sempre fiz, a diferença é que sinto que faço bem melhor. 
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PAPALIA, D. E.; OLDS, S, W.: O Desenvolvimento Humano, Editora Artmed, 2006.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Como decidir se um filme é ou não feminista?


No começo do ano falei do Bechdel Test, um teste que não é bem um teste criado por uma cartunista americana lésbica para determinar se um filme vale a pena ser visto por ela. Para que ela se disponha a sair de casa e ir ao cinema, um filme deve cumprir três regrinhas básicas: 1) ter no mínimo duas personagensfemininas, 2) que falem uma com a outra, 3) sobre algo que não seja um homem. Só isso, mais nada! Pense em quantos filmes não têm pelo menos dois personagens masculinos (com nomes) que falem um com o outro sobre algum outro assunto que não seja mulher. Mas, no caso de personagens femininas, tem um monte que não passa no Bechdel Test, incluindo aí grandes filmes, como Caçadores da Arca Perdida,Trainspotting, Curtindo a Vida Adoidado, Pulp Fiction, O Poderoso Chefão, etc.


O Bechdel Test nos faz pensar em como é absurdo que a forma de arte e entretenimento que atrai mais gente na atualidade seja tão excludente com as mulheres, e como a indústria que é Hollywood praticamente só tem homens na direção, produção e roteiro de uma obra, o que deve influenciar a falta de representatividade feminina. Mas o teste é muito limitado. Ele não determina se um filme é bom (ok, critério totalmente subjetivo), ou se a representação das mulheres é positiva, ou se o filme é feminista. Por exemplo, em quase toda comédia romântica a protagonista tem uma melhor amiga (às vezes substituída por um BFF gay), e elas conversam sobre coisas que não sejam um homem, como... ahn, roupas, maquiagem e forma física. Comédias românticas passam no Bechdel Test, mas passam pra quê?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Para quem não gosta, toda feminista é radical



Minhas leitoras e leitores são demais! Aprendo muito com el@s. Eu escreveria um post gigantesco pra expressar claramente o que a Liana foi capaz de dizer em um parágrafo: 

“Misandria = ódio ou desprezo pelo sexo masculino. Feminismo = movimento que defende direitos iguais e uma vivência humana liberta de padrões opressoresbaseados em normas de gênero. Bem diferente. Qualquer mulher que diga que homens deveriam não existir, que estaríamos melhor sem eles, estão propagando ideias misândricas, e não feministas. Aí está o termo extremista, já existe, não precisam inventar nenhum xingamento ou expressão chula. E tampouco relacionar uma com a outra. Se alguma mulher dessas se envolver em querelas feministas, relacionem a atitude dela com aquilo que ela é... uma misândrica”. 

Perfeito. De fato, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Achar que feministas odeiam homens é ideia (fixa) de quem odeia o feminismo, mas está longe de ser verdade. Na realidade, eu não conheço uma só feminista que se encaixe nesse perfil, e olha que eu conheço um monte (mais virtualmente que na vida real, mas ainda assim). Conheço algumas mulheres que, não sei se realmente odeiam homens (quem é louc@ pra odiar metade da humanidade? Opa, os mascus!), mas vivem dizendo “Homem não presta”, “homem é tudo igual”, e emitindo opiniões muito desfavoráveis aos homens de forma geral. Ironicamente, nenhuma dessas mulheres é feminista. Pelo contrário, elas detestam o feminismo. 

Também não entendo por que algumas pessoas têm a necessidade de um rótulo para chamar @s “extremistas” de um movimento. Quem é extremista? Quem é radical? De acordo com que padrão? Se extremistas existem em todo e qualquer movimento, eles são minoria. São tão minoria que a maiorparte dos ativistas nem sabe que existem. Mas sabe quem sabe, ou acha que sabe, que extremistas existem? Quem vive de criticar todo e qualquer movimento social. Pra essas pessoas, o próprio fato de existir um movimento social que luta por direitos já é um ato extremista. Essa gente ou quer manter seus privilégios intocados ou acha que ninguém tem que se mexer, que revolta é coisa de comunista, ou, como disse um leitor esses dias, de “estudante de Humanas”. Porque o mundo é uma maravilha só do jeito que tá, e em time que está ganhando não se mexe, se melhorar estraga, né? 

Os mascus, por exemplo, que têm como missão declarada destruir o feminismo,que tanto empobreceu as mulheres (eles gostariam de voltar à década de 1950), só conhecem uma feminista: Valerie Solanas. Eles têm muito mais familiaridade com a Solanas do que eu. Apesar de eu me considerar feministadesde criancinha, só ouvi falar na Solanas quando vi um filme independente, Um Tiro para Andy Warhol. E no filme o mais importante é o que tá no título (ela atirou num artista super conhecido; felizmente não conseguiu matá-lo), não que ela é feminista. Ela escreveu um manifesto chamado SCUM, cujas iniciais talvez (isso não está em nenhum lugar do livro) signifiquem Society For Cutting Up Men(Sociedade para Mutilar os Homens). O manifesto é absurdo, e muita gente acha que Solanas estava sendo sarcástica. Obviamente quem pensa que todas as feministas são como Solanas creem que ela estava falando seríssimo. De um jeito ou de outro, achar que Solanas representa o feminismo, que ela é sequer um nome importante, é tão ridículo quanto dizer que Jack o Estripador representa os homens. 

Enfim. Nunca vi o termo “feminista radical” (ou seu insulto pesado, feminazi, criado por Rush Limbaugh, um dos maiores reaças americanos) ser usado com um mínimo de bom senso. Ele é empregado toda vez em que uma feminista não fica lá, quietinha no seu canto, calada e fofinha, deixando que os homens falem por ela, ou quando critica alguém. Qualquer um. Qualquer coisa. Como disse a Liana num outro comentário, em quase 100% das vezes que ela ousou dizer que algo era machista, falaram pra ela relevar, não dar importância. Tem algum post aqui sem algum comentário do tipo “Tem tanta coisa mais importante acontecendo no mundo e vocês ficam falando disso”? Se essa mesma feminista que ouve um “Releve, deixa estar”, não relevar e criticar, o que acontece? Aí ela deixa de ser feminista, esse conceito abstrato, e torna-se uma feminista radical. 

Não que haja algo errado em ser radical. Radical quer dizer que você realmente defende uma causa? Que pessoas que já não gostam da sua causa vão se irritar? Que você vê machismo até em inofensivas piadas? Que você não acha que um filme é só um filme? Se for isso, sou radical.

Tem quem defenda o uso defemista pra diferenciar feministas de mulheres que odeiam homens. Nunca useifemista e não sei de onde veio, mas desconfio que foi da mente torpe de alguém sem apreço pelo feminismo, que cria um termo com uma só sílaba a menos para confundir. Não tem por que usar femista, até porque o termo associa ódio ao homem exclusivamente a mulheres e feministas. Quando a gente se refere a alguém que odeia mulher usa só o prefixo mis, que quer dizer ódio, com o radical gino, mulher. Por que com ódio aos homens deveria ser diferente? Misândrico segue o mesmo princípio correto: o prefixo mis com andro (homem). 

Nessa confusão sobre o que é feminismo radical se misturam outras besteiras. Por exemplo, isso de achar que toda mulher é feminista. A gente sabe que não é, e que inclusive tá cheio de mulher com os mesmos valores machistas dos homens. Mas, na hora de atacar femininista, vale tudo ― até inventar que mulheres num programa de TV americano que riram de um pênis decepado seriam feministas. Essas mulheres nunca se declararam feministas. É um programa de auditório bem baixo nível. Mas, pronto, elas viraram feministas de uma hora pra outra pra quem tava louco pra atacar o feminismo. 

Rir de pênis decepados, sacanear homens, objetificar homens, odiar homens, piadinha sobre homem incapaz, comercial de produtos de limpeza tratando homens como incompetentes (e assim perpetuando a lenda de que só mulher pode cuidar da casa) ― nada disso é feminismo. Nem feminismo limpinho e cheiroso nem radical, seja lá o que for isso.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Blogueiras Feministas pela legalização do aborto

No último dia 18, aproveitando a presença de um monte de gente e o sentimento de entusiasmo da Marcha das Margaridas, houve uma plenária em Brasília da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto. A iniciativa reúne diversas entidades, como a Marcha Mundial de Mulheres, a CUT, a UNE, a Articulação de Mulheres Brasileiras, PSOL, etc. E agora, as Blogueiras Feministas fazem parte dessa lista: fizemos nossa adesão oficial à Frente. Digo oficial, porque a gente já vem fazendo e difundindo esse debate na lista de emails, no blog, nas redes sociais, etc.
Faixa pela legalização do aborto na Marcha das Margaridas. Foto de Tica Moreno/Flickr da MMM

Durante a reunião, foi divulgado o estudo “Advocacy para o acesso ao aborto legal e seguro: semelhanças no impacto da ilegalidade na saúde das mulheres e nos serviços de saúde em Pernambuco, Bahia, Paraíba, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro”. O trabalho foi desenvolvido pelo Ipas Brasil e pelo Grupo Curumim, em parceria com organizações do estados estudados. E traz dados para entendermos que a criminalização do aborto não é apenas uma forma de criminalizar as mulheres, retirando o direito da mulher ao próprio corpo. É uma forma de criminalizar as mulheres negras e pobres.

O aborto clandestino é um problema principalmente para as mulheres pobres, que têm menos acesso a clínicas e a bons profissionais. Além de ser realizado em condições inseguras, os maus-tratos no atendimento nos serviços de saúde e mesmo o medo de procurá-los torna ainda mais graves as conseqüências de abortamentos, aumentando os riscos de morbidade feminina, da esterilidade e de mortalidade materna.

“O resultado da proibição legal ao aborto é desastroso, pois condena contingentes de mulheres a optar por métodos inseguros para sua realização em condições adversas que representam riscos para a saúde e podem levar a seqüelas físicas e psicológicas”, argumenta o estudo. Dentro disso, os maiores riscos são para as “mulheres pobres, negras, jovens, com baixa escolaridade e com pouco acesso a serviços de saúde de qualidade, tornando-o uma questão de justiça social no Brasil”, continua o texto.

Um exemplo disso vem da Bahia. “Em Salvador, município com 82% de população feminina negra, o abortamento inseguro foi a principal causa de mortalidade materna durante toda a década de 1990, diferentemente das demais capitais brasileiras, cuja primeira causa eram as hipertensões”. No Mato Grosso do Sul, a pesquisa mostrou que a “escassez de ações do Estado e a falta de informações em linguagem acessível para a população indígena sobre questões relacionadas à gestação, contracepção, mortalidade materna e abortamento, possivelmente, coloca as mulheres indígenas no grupo de maior vulnerabilidade em matéria de acesso a políticas de saúde reprodutiva”.



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sim, sou feminista!

Esse texto da Ateia de Bom Humor descreve muito bem o que eu já senti. Por muito tempo não me afirmei como feminista por muitos dos motivos descritos abaixo e, também por um questão da etimologia da palavra. Mas minha conciência pós-beauver me fez ver o feminismo como mais que uma questão de tentar ser um homem mas poder ser o que quiser (inclusive um dona de casa). Outra coisa bem relatado, é o fato de total incoerencia de alguns ateus e ateias que justificam o comportamento feminino da mesma forma que muito conservadores.


Tem coisas que nos parecem tão óbvias que dispensariam comentários, mas de vez em quando percebo que para outras pessoas não é tão óbvio assim. Por isso resolvi abordar o assunto, para não haver dúvidas.

É comum que mulheres independentes tenham medo de se manifestar publicamente sobre o assunto, porque a palavra feminismo no Brasil me parece bastante mal compreendida. E a imagem que se tem de uma mulher feminista é extremamente distorcida.

Historicamente falando, as conquistas das mulheres por igualdade é muito recente. O direito de voto (Sufrágio Feminino – Wikipédia) foi conquistado pela primeira vez em 1893, na Nova Zelândia, ou seja há menos de 120 anos. No Brasil só foi efetivamente conquistado em 1932, menos de 80 anos atrás. Até 1962 (menos de 50 anos), pela lei brasileira, uma mulher casada só podia trabalhar fora com a autorização por escrito do marido. Só em 1988 (há 23 anos) é que o homem deixou de ser considerado o “cabeça do casal” (ver esse link para mais detalhes). Lembro muito bem do tempo em que uma mulher precisava da autorização do pai dos seus filhos para poder viajar com eles, mas o inverso não era necessário (sic!).

Estou apontando estes fatos para rebater um argumento frequente, o de que hoje as mulheres não podem mais se queixar de “desigualdade”. Não é bem assim. Um condicionamento milenar não acaba em uma ou duas gerações. A mentalidade ainda permanece, tanto entre os homens como entre as próprias mulheres.

Uma pergunta comum é porque há poucas mulheres no ateismo, por exemplo. Uma das explicações é que socialmente ainda é mal visto quando uma mulher bate pé por suas opiniões e posicionamentos. Espera-se que a mulher ceda, seja diplomática, não confronte. Ser afirmativa e sustentar as suas opiniões é considerado “não-feminino” muitas vezes, até mesmo em ambientes ateistas.

Ser tachada de feminista no Brasil muitas vezes equivale a ser vista como pouco feminina, raivosa, uma mulher que odeia homens, etc. Por isso acredito que muitas mulheres independentes financeiramente não se assumem como tais.

Falando de mim mesma, eu não odeio homens, muito pelo contrário. Sou casada há muito tempo e acho muito bom. E conheço vários homens que não são machistas. O feminismo não é uma guerra contra os homens; na verdade muitas vezes beneficia os homens, tirando deles algumas cargas. Por exemplo, meu marido se aposentou, e todos sabem que o valor das aposentadorias vai diminuindo gradativamente. Nos antigos moldes, ele teria que continuar trabalhando para manter a renda familiar num certo patamar. No nosso caso, eu continuei trabalhando com aulas particulares de inglês e sueco, complementando assim a nossa renda; em troca ele assumiu a cozinha, até porque os meus horários dificultam que eu cuide dessa parte. Querendo saber mais sobre nós, leiam este post.

Para mim, feminismo é isso, uma relação em pé de igualdade em que há respeito e admiração de ambas as partes. Suponho que alguns/algumas vão discordar de mim, mas é assim que eu vejo a questão.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Momento Concernente [5]

Vadia, eu?

Viviane Favery, 25 anos, publicitária.
Adora minissaias e calças justas, 
mas não usa com frequência porque não 
gosta de ser encarada nas ruas. 
“Acho invasivo aquele olhar de 
cão faminto que os homens dirigem a você”
Quando trabalhou como promotora num evento em São Paulo, a jornalista Simone Grazielle, 30 anos, chegou a ouvir mais de uma vez, de mais de um homem: “Quanto você cobra?”. Vestia short e bota e tinha caprichado na maquiagem. Ela, no entanto, não ficou chocada – como usa frequentemente roupa curta e decote, inclusive na produtora onde trabalha, está acostumada a esse tipo de abordagem. “Se a mulher é muito exuberante, os homens acham que ela é puta”, resume Simone.

Assim como ela, outras mulheres que não se vestem de maneira sensual com o intuito de atrair a atenção da ala masculina – e sim porque gostam – têm de escutar cantadas desrespeitosas e acabam sendo rotuladas, entre outros insultos, de “vaca” e “vadia”. Em casos extremos, são agredidas fisicamente e vítimas de abuso sexual . A justificativa para muitos dos casos de violência física ou moral continua sendo a de que a mulher não deveria sair por aí exibindo o corpo. Ou seja: a culpa é dela.

E esse assunto, que parece bobo (mas não é) acaba de entrar na ordem do dia. Mulheres do mundo inteiro se rebelaram contra as agressões morais e físicas e organizaram a Marcha das Vadias (ou Slut Walk) em dezenas de cidades, como São Paulo, Nova York e Londres. Nessas passeatas, saíram às ruas com roupas provocantes e carregando cartazes com frases como: “Eu me visto para mim, não para você”.

Mas, enquanto as coisas não mudam, a solução encontrada por Simone para se esquivar das perguntas constrangedoras foi investir em respostas bem-humoradas, como “o estilo Bruna Surfistinha está na moda”. Em outra ocasião, estava na sala VIP de um aeroporto e ouviu de duas senhoras que era inadmissível “uma dama de companhia ocupar o mesmo espaço que elas”. Simone explicou educadamente que se sentia bonita daquele jeito e alfinetou: “Se fosse uma dama de companhia não precisaria trabalhar tanto como jornalista”.

Cão faminto

Nem todas conseguem reagir como Simone. A publicitária Viviane Favery, 25 anos, evita usar minissaia porque não gosta de ser abordada o tempo todo. “Acho invasivo aquele olhar de cão faminto que os homens dirigem a você. Não sou uma amostra grátis”, discursa. Ela diz que usaria mais calças justas e minissaias se não tivesse de lidar exaustivamente com olhares gulosos, mas garante não ligar para julgamentos morais. “O olhar é problema meu porque me traz desconforto imediato. Mas o julgamento, bom, é problema de quem julga.”

Foi quando usava uma saia que a produtora cultural Paula Chang, 26 anos, sofreu um assédio sexual e uma agressão física no metrô de Paris. Saindo de um bar, ela desceu até uma estação com amigos e cada um seguiu seu caminho. Nessa hora, um homem se aproximou e enfiou a mão por dentro de sua saia. Ela o empurrou e ele reagiu com um soco. No dia seguinte, Paula deu queixa na polícia parisiense e meses depois foi chamada para prestar depoimento.

Chegou a assistir ao vídeo que registrava o momento do assédio e olhou fotos do suposto agressor, mas não o reconheceu. “Fiquei um bom tempo traumatizada, com medo de sair às ruas. Aos pouquinhos fui me recuperando”, conta.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Especismo deve ser tema das lutas das mulheres


Não há dúvida que o consumo de carne na nossa sociedade é vendido como algo masculino. Afinal, mulher tem que gostar de salada; homem, de churrasco. Como nossa cultura relaciona o consumo voraz de carne ao apetite sexual (e esse apetite, como estamos cansadas de saber,não cai bem para as mulheres certinhas), a propaganda faz tudo para ligar carne à masculinidade, como se estivéssemos ainda no tempo das cavernas, em que nossos valentes antepassados saíam com suas travas para caçar Tiranossauros Rex (é, tem gente que acha que Flintstones é documentário). Há inúmeros exemplos na propaganda desse clichê. Ainda hoje o homem é pintado como um eterno caçador, que sai à noite à caça de carne, cerveja, mulher. Animais ganham outro nome quando são comidos (não comemos boi nem vaca, comemos bife); mulheres são reduzidas a meros nacos de carne.

O especismo indiscutivelmente passa pelo machismo. Há pelo menos um livro importante sobre o assunto, chamado The Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian CriticalTheory, de Carol J. Adams (a Deborah traduziu um pedaço na segunda metade do seu FAQ Vegan). A opressão e a exploração dos animais tem muito a ver com a opressão das minorias humanas, como mulheres e negros (veja, por exemplo, o Vegans of Color, que trata de lutas raciais e anti-especistas).

A Deborah, que já havia nos agraciado com um excelente guest post sobre veganismo, desta vez se junta a Patrícia Nardelli para escrever um texto cujo tema, a meu ver, deve ser pensado em todas as nossas lutas.

[Deborah] Quem afaga um cão e come uma picanha “sangrenta” é “mau”? Não, mas é de fato especista, ou seja, alguém que trata determinados animais como “coisas” e outros enquanto “indivíduos”, o que é muito similar ao machismo: “É claro que não sou machista! Amo minha mãe, minha filha e minha irmã! O que não defendo é mulher que não se dá o respeito!”.

[Patrícia] O especismo se define exatamente por isso: é a consideração de que uma espécie é superior às outras e, portanto, detém direitos sobre ela. Não à toa, é bem parecido com o racismo e o sexismo. Quem assistiu ao documentário Terráqueos (veja aqui) ou leu Libertação Animal do Peter Singer (sem entrar aqui no mérito da discussão bem-estarismo x abolicionismo) sabe que a comparação é proposital e filosoficamente embasada. Para ficar mais claro, a definição da Wikipédia é muito bem resumida:

domingo, 24 de julho de 2011

A Música Feminista das Riot Girls

Imagem: Kathleen Hannah, do Bikini Kill, em 1992. Foto de Linda Rosier.
Aqui no Brasil fala-se pouco sobre isso. Mas, segundo o The Guardian, mesmo após 20 anos, o movimento das Riot Girls (ou riot grrrls) continua relevante para meninas que buscam sua própria independência musical tocando rock. O movimento surgiu nos anos 90 como uma resposta ao machismo do movimento punk – e do rock em geral, que relegava às mulheres posições somente como vocalistas, como se mulheres não fossem capazes de tocar instrumentos considerados masculinos como: guitarra, bateria e baixo. Uma das ideias de incentivo às meninas era que “não importa se você toca bem ou não, o importante é ter algo a dizer”. Se estabeleceu nos EUA e alguns creditam a origem do nome à Alison Wolfe, da banda de punk rock Bratmobile – uma das pioneiras do riot grrrl junto ao Bikini Kill, liderada pela ex-stripper Kathleen Hanna, que acabou se tornando a banda porta-voz do movimento.

O Bikini Kill surgiu inicialmente como um fanzine e logo houve a necessidade de montar uma banda para reforçar o que seria o embrião de um movimento. Durante as apresentações da banda, Kathleen “convidava” os rapazes a irem para o fundo e convocava as meninas à ocupar posições privilegiadas em frente ao palco (onde a banda entregava zines e letras de músicas para elas) e costumava ter atitudes ditas “chocantes”, como levantar a blusa e exibir palavras como ‘slut’ (vadia) e “rape” (estupro) escritas em seu corpo. Uma forma de protesto contra a violência e o preconceito com a sexualidade feminina, não muito diferente daquela que assistimos recentemente ao redor do mundo, desta vez com as mulheres em marcha pelas ruas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

666, o número do homem besta

"Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis."
Por algum motivo que totalmente escapa ao meu conhecimento, o famoso "meia, meia, meia" causa desde calafrios em alguns até constipação em algumas (sendo o bloqueio ventral mais comum nas de inclinação feminina) pelo simples fato de aparecer na passagem citada acima. Na minha "sabedoria", tendo eu "entendimento", calculo que o "número da besta" é o mesmo que o "número de homem". Eliminando "número" dos dois lados da equação, concluo matematicamente que besta = homem, i.e., homem é bicho besta.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Campanha contra estupro causa polêmica. Por que será?

A notícia diz que a campanha, que começou diante da existência de números alarmantes de estupros cometidos, pasmem, não por desconhecidos, mas por colegas de farda, dentro da Marinha dos Estados Unidos, provocou polêmica.
Print Screen da Página do G1.

Polêmica? Por quê?

A resposta, infelizmente, é que, ao tirar a responsabilidade da vítima do estupro, e colocá-la sobre o estuprador, rompe-se toda uma lógica construída…

A imagem do estuprador como a de um “serial killer”, ou seja, uma personalidade psicótica ou perversa, que vai atacar independente de quantas campanhas sejam feitas, que não tem cura nem tratamento, ajuda a perpetuar essa justificativa: se se trata de um “animal”, logo, cabe à vítima se prevenir, não “provocando” os instintos irrefreáveis do “monstro”, ou seja, não saindo sozinha, não se vestindo de forma provocativa, não conversando com desconhecidos, coisas do gênero (falando claramente: sendo uma moça comportada)

domingo, 17 de julho de 2011

Desmistificando os Homens

Homem gosta mais de demonstração de afeto que mulher, diz estudo

Um estudo norte-americano com casais heterossexuais de meia-idade chegou à conclusão que, em se tratando de relacionamentos duradouros, os homens gostam mais de demonstrações de afeto do que as mulheres.

A pesquisa feita por sociólogos do Instituto Kinsey, da Universidade de Indiana (EUA), é a primeira de cunho internacional sobre o comportamento sexual de casais --e coloca no chão muitas teorias tradicionais.

O grupo estudado envolveu mil duplas com idades entre 40 e 70 anos que viviam relacionamentos longos (25 anos em média) em cinco países. A saber: Brasil, Espanha, Japão, Alemanha e Estados Unidos.

A disparidade entre ambos ficou evidente na questão sobre contato físico. Os homens citaram abraços, beijos e afeto como sendo mais importantes para a felicidade do casal, mas as mulheres, não.

Elas afirmaram que o beijo e o abraço não contribuíam tanto com a felicidade delas.

Os homens que beijavam e abraçavam mais eram também três vezes mais felizes do que os que não faziam o mesmo, segundo estudo que está publicado em "Archives of Sexual Behaviour".

OS MAIS FELIZES

Outro dado é que os dois grupos disseram que eram mais felizes e aproveitavam melhor o sexo quanto mais longa fosse a relação com o parceiro. Mas foram as mulheres que mencionaram mais a satisfação sexual, maior do que nos estágios iniciais da relação, enquanto os homens citaram a felicidade.

Os japoneses se consideraram os mais felizes entre todos os homens que participaram da investigação. Entre as mulheres, foram as japonesas e as brasileiras. Em termos de satisfação sexual, mais uma vez despontaram os japoneses e os brasileiros.

O estudo também indicou que homens que tiveram muitas parceiras ao longo da vida eram menos satisfeitos sexualmente do que aqueles que tiveram poucas.

O uso do 'x' vs Academia Brasileira de Letras

Como já é de conhecimento de todos, a Academia Brasileira de Letras - ABL em suas regras e definições tem o costume de dar certos privilégios nas regras gramaticais.

Deve-se levar em consideração que ela antes foi desejada por homens, fundada por homens e é dirigida por... ... mulheres homens, então podemos está claro a sua postura quando às generalizações gramaticais. Por exemplo: sou estudante do curso de Psicologia, e acho um absurdo os professores entrarem na sala com um "Boa noite, alunos" sendo que eles representam menos de 10% da turma. Isso é um grande abuso e absurdo e a  ABL tem feito muitas coisas para mudar essa realidade retrógrada e machista, coisa do tipo: NADA! Mas como diria Beauvoir, se o oprimido aceita por que o opressor vai mudar?

Portanto se como eu, você também já evolui seu pensamento quanto a este tipo de generalizações e não concorda com esse machismo gramatical, junte-se aos que aderiram ao uso do 'x' em palavras de gêneros, do qual algumas pessoas tem usado para não dar privilégios à sexo algum na língua portuguesa escrita. Por mais que descreva uma atividade comum à mulheres ou como aos homens.



Referência:
Academia Brasileira de Letras - ABL, Fundação. Disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=2> Acesso 17/07/2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Encontros de conhecimentos

Entre meus estudos e opiniões, eu me esforço para ser coerente. Tenho pavor de entrar em contradição, embora seja impossível ser coerente a todo o momento. Então, quando temas se encontram e em harmonia, a sensação é tão boa que é indescritível. 

Em diversas áreas do conhecimento (o de Maslow, Sartre, político, religioso, etc.), o Humanismo sempre me encanta, principalmente o da Psicologia que, a meu ver, é a única abordagem que nem trata o ser humano como um robô e nem é cheio de teorias conspiratórias sobre a infância de cada um. E todo Humanismo que estudo sempre me encanta 

No início desde ano comecei um grupo (de duas) de estudos sobre o conceito de mulher em Simone de Beauvoir. E no início desse semestre comecei a estudar sobre o Existencialismo Humanismo de Jean Paul Sartre, marido de Beauvoir. 

O estudo feminista de Beauvoir intriga e é bem claro, objetivo e instigante assim como Humanismo de Sartre, entre outras coisas que em outro post eu descrevo. Mas o que eu achei mais impressionante e me deixou muito contente foi a surpresa de que, além desses dois levantarem bandeiras que eu goste antes de e eu havia estudado sobre eles, eles tem uma relação amorosa aberta. Ou seja, esse casal representa três grandes manifestações de pensamento das quais eu admiro e pratico. 

Uma grande coincidência que veio a mim como um grande presente, reforça as minhas inúmeras tentativas de coerência e me anima a seguir com os estudos que decidi potencializar esse ano.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Caça as Bruxas

Preparem suas tochas que a fogueira da Santa Inquisição vai ser acesa. Passaram-se quase dez séculos desde que as primeiras bruxas alimentaram o fogo da intolerância católica, mas não é difícil perceber que os inquisidores estão por toda parte. Com suas tochas acesas, prontas para queimar qualquer um, de preferência qualquer uma, que ousar levantar a voz contra aquilo que é considerado correto.

Explicando o caso.

Uma mulher abandonou a filha num saco de lixo no frio de São Paulo. Existe coisa mais trágica que isso? Existe cena mais degradante que essa? Uma criança encontrada no lixo por um cachorro? Se existe, são poucas que se equiparam com o horror que essa cena causa.

Existe culpado? Sim, a mãe. Ou melhor, a “vaca maldita que só quer saber de dar por aí, que não tem coração, o monstro que pariu essa pobre criança”. Esses impropérios não foram usados diretamente nas matérias veiculadas pela Globo News, mas ficaram subentendidos em cada chamada sobre o caso. Essa pergunta já foi feita milhões de vez, mas não custa repeti-la: cabe à mídia julgar?

Porém, se não cabe à mídia julgar, embora vejamos juízos de valor implícitos o tempo todo, ainda mais em casos extremos como esse, a quem cabe julgar essa mulher, além da justiça? Não fique espantad@ com a resposta, mas asseguro que ela é verdadeira: ninguém. Guarde seu julgamento moral para você.

Imagem: Cena do filme O processo de Joana D'arc de Robert Bresson (1962). Mulher, herege, louca aos olhos dos conservadores, Joana D'arc foi queimada na fogueira pelo Tribunal da Santa Inquisição.

A Constituição brasileira, aquele livrinho redigido em 1988, assegura que todas as pessoas têm direito de ampla defesa. Ou seja, essa mulher que ninguém conhece, mas sobre as quais recaem os piores sentimentos, tem o direito de apresentar suas motivações, ou a falta delas.

Defender o direito dessa mulher de não ser linchada publicamente não é ser conivente com o abandono de uma criança, no frio de São Paulo ou no calor da Bahia, recém nascida ou aos cinco anos de idade. Defender o direito dessa mulher de ser defendida é tentar mostrar que as mulheres estão há muito tempo pagando uma dívida que não é nossa. É de toda a sociedade. A maternidade tem uma função social e deve ser entendida como assunto de Estado também, além de assunto de homens.

Onde está o pai da criança? Em todas as críticas que recebi por ousar defender o direito dessa mulher de não ser julgada pelos valores pessoais de cada um, em nenhuma apareceu qualquer menção sobre o outro responsável direto por essa criança: o pai. Ou será que essa “vaca maldita” se reproduz por brotamento? Ela pode até ser um monstro sem coração, mas precisa de um par masculino para engravidar.

As pessoas ficam indignadas quando algo tão trágico como uma criança jogada no lixo aparece na mídia. Por outro lado, não percebo tamanha indignação e esforço para cobrar do Estado que ampare as mulheres em sua maternidade.

Não percebo essas pessoas cobrando melhores condições de vida para as mulheres, melhores empregos, salários justos, ou ampliação do número de creches, principalmente, creches 24 horas para as mães trabalhadoras e estudantes. Licença paternidade então, parece assunto proibido.

Aos inquisidores de plantão fica a dica: lutem por um mundo que trate homens e mulheres de forma igualitária e guardem sua moral e bons costumes para vocês mesmos.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

SlutWalk - Protesto ‘marcha das vagabundas’ chega ao Brasil neste sábado

Comentário de policial no Canadá inicou movimento contra machismo.
Convocado pelo Facebook, evento em SP tem mais de 5 mil adesões.


Mulheres participam do movimento ‘SlutWalks’ no Canadá (Foto: AP)
Um protesto que começou no Canadá e vem ganhando as ruas de vários países do mundo chega ao Brasil neste fim de semana. Conhecido como ‘SlutWalk’, a primeira marcha das vagabundas (ou das vadias, como vem sendo traduzido) deve acontecer na Avenida Paulista, neste sábado (4), a partir de 14h.

O movimento ‘SlutWalk’ começou no mês passado em Toronto, no Canadá, quando alunos de uma universidade resolveram protestar depois que um policial sugeriu que as estudantes do sexo feminino deveriam evitar se vestir como “vagabundas” para não serem vítimas de abuso sexual ou estupro.

“Quando ouvimos pela primeira vez sobre a Polícia de Toronto rotular as mulheres e pessoas com maior risco de abuso sexual de "vagabundas", pensamos em fazer barulho e exigir mais do que um pedido de desculpas. Temos o direito constitucional de liberdade de expressão e decidimos usá-lo”, diz o site do grupo (www.slutwalktorontol.com).

A primeira marcha reuniu cerca de 3 mil participantes vestidas de forma provocativa ou comportada para chamar a atenção para a cultura de responsabilizar as vítimas de estupro. Foi o estopim para que outros eventos semelhantes se espalhassem por várias cidades dos Estados Unidos e Europa.

Partipantes da marcha das vagabundas de Paris, realizada no último dia 22, usam barbas e seguram cartazes onde se lê: 'Somos todas camareiras', em referência ao caso do ex-diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, preso acusado de abusar sexualmente de uma camareira (Foto: Stephane Mahe / Reuters)

No Brasil, onde foi convocado por meio do Facebook, o evento já tinha a adesão de mais de 5 mil pessoas até a tarde desta quinta (2). “Fiquei até meio assustada com a quantidade de pessoas [que aderiram]. Se vai ter número maior ou menor, não importa, o importante é fazer o barulho que a gente quer fazer”, diz uma das organizadoras da marcha, a publicitária Madô Lopes, 29.

Segundo ela, que disse ter compartilhado com amigos a necessidade de fazer um evento semelhante no Brasil, a vestimenta é livre para participar do evento, em que homens também são bem vindos.

“Cada um vai vestido como quer. Tem garotas que vão vestidas como vagabundas, tem quem goste de saia justa, tem quem não goste. Não é um baile de fantasia. Mas quem quiser ir ludicamente vestido, pode ir. Todo mundo vai estar lá pela mesma causa que é o respeito à mulher”, afirma.

Já no calendário de eventos do site oficial, a marcha paulistana ocorre no mesmo dia das de Los Angeles e Chicago (nos EUA), Edmonton (Canadá), Edinburgo (Escócia), Estocolmo (Suécia), Amsterdã (Holanda), Copenhagen (Dinamarca) e Camberra (Austrália).

Belo Horizonte
Com inspiração na marcha paulistana, um segundo evento brasileiro já está programado para o próximo dia 18, em Belo Horizonte. Com menos adesões até agora –os participantes no Facebook somavam mais de 800 até esta quinta- a marcha mineira vem ganhando o apoio de grupos feministas e de questões de gênero e até da associação dos profissionais do sexo local.

“Muitas pessoas reagiram ao convite perguntando: ‘Por que me convidaram para esse evento? Eu não sou vagabunda!’ O propósito é discutir um assunto ainda polêmico. Hoje quase não se discute as questões de gênero, é como se tivessem sido resolvidas. A forma como algumas pessoas têm reagido já é indício de como a questão é delicada”, diz a atriz e diretora de teatro Débora Vieira, 29, uma das organizadoras.
Convocação para a marcha das vagabundas BH, marcada para o próximo dia 18 (Foto: Reprodução)




Articulada com grupos feministas, ela lembra o episódio da estudante Geisy Arruda, que foi expulsa de uma universidade de São Paulo após ter sido hostilizada por alunos por usar um vestido curto, como exemplo do atraso do país nas discussões de gênero.

“Quando aconteceu o episódio da Geizy Arruda, a reação na mídia de fora foi bem curiosa. ‘Como o país das bundas e do carnaval reage com tamanha agressividade a uma roupa curta?’ Quando é a própria mulher que toma atitude de se exibir, botar roupa curta ou falar de sexo, é chamada de vadia, de vagabunda. Belo Horizonte não está longe disso. Aqui, enfrentamos o mesmo problema da maioria das cidades brasileiras, em que as mulheres têm que ser educadas para evitar que o estupro aconteça.”


Já nesta semana, na quinta-feira (9), haverá um reunião para discutir pontos polêmicos sobre o assunto, inclusive o nome do evento. “Tem gente que afirma que o nome é pejorativo e está com medo de ir com medo por causa disso”, explica a antropóloga Júlia Zamboni, também da organização da edição brasiliense da marcha.

Lia afirma que o nome Marcha das Mulheres Livres seria até mais adequado para o contexto brasileiro, mas não chamaria tanta atenção. “Sendo vadias ou não, a gente quer ter o direito sobre o próprio corpo. O significado da marcha é maior”, afirma. A reunião será às 18h, em frente ao Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília.

A violência doméstica também deve entrar na pauta da reunião. “A gente tem uma outra causa que é muito forte, que á violência doméstica. É algo que já é naturalizado no Brasil, como se fosse algo comum. Não saberia dizer se somos mais machistas do que a média, mas o país está muito atrás na questão da igualdade de gênero”, avalia Júlia.

A concentração da Marcha das Vadias será às 12h, em frente ao shopping Conjunto Nacional. As manifestantes pretendem passar pela Rodoviária do Plano Piloto e pela Feira da Torre antes de ir para o Parque da Cidade, onde devem se encontrar com a Marcha pela Liberdade, organizada pelo movimento LGBT e por grupos que defendem a legalização do comércio de maconha e derivados.

Fonte: G1
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